domingo, 11 de dezembro de 2011

Cidade de Goiás comemora 10 anos do título de Patrimônio Histórico Mundial

11/12/2011 - Correio Braziliense

Renato Alves

A cidade de Goiás está em festa. O município de 25 mil habitantes, distante 270km de Brasília e também conhecido como Goiás Velho, comemora 10 anos do título de Patrimônio Histórico e Cultural Mundial, concedido pela Unesco, órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). Em função da data, construções centenárias passaram por restauração ao longo de 2011 e uma série de eventos começa na noite da próxima quarta-feira.

Fundada em 1727 pelo filho do bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o Anhanguera, Goiás Velho conserva o cenário de quando o Brasil ainda era uma colônia portuguesa. Quase todas as residências do município mantêm as paredes feitas de barro. As ruas são pavimentadas com pedras, como há três séculos. A cidade ainda teve fundamental importância para os integrantes da Missão Cruls, o primeiro grupo de cientistas a explorar as terras que formariam o Distrito Federal.

O casario de Goiás Velho é diferenciado e mantém o estilo que justifica o status de tombamento local

Nenhuma outra cidade goiana tem a memória tão preservada em museus e igrejas como Goiás Velho. Nesse quesito, supera e muito Pirenópolis, xodó dos brasilienses. Os edifícios seculares de Goiás Velho guardam algumas das mais antigas relíquias do estado do qual o município foi a primeira capital. Dos templos religiosos, destaca-se a Catedral de Sant’Ana, cuja fachada ostenta as três fases da sua construção, do início, no século 18, até o fim da recuperação, em 1997.

Já a Igreja de Nossa Senhora do Rosário chama a atenção pela bela torre e a sua história. Conhecida como antiga Igreja dos Pretos, foi demolida e reconstruída em estilo neogótico em 1934 pelos frades dominicanos oriundos da França. No seu interior, encontram-se afrescos elaborados por Nazareno Confaloni na segunda metade do século 20, percursor do modernismo no estado de Goiás e fundador da Escola de Belas Artes da Universidade Católica de Goiás.

Alguns dos templos passaram por restauração em 2011 por causa dos 10 anos do título da Unesco. “Recuperamos a Igreja São Francisco de Paula, o Colégio Santana e refizemos a ponte do Carmo, que liga os bairros de Santana e do Carmo. Também realizamos ações como descentralização de recursos para encontro de corais, de violeiros e concerto de piano”, conta a superintendente do Instituto do Patrimônio (Iphan) em Goiás, Salma Saddi.

Arte e sabores
Além da arquitetura colonial, Goiás Velho é terra de arte e de artistas. A poeta Cora Coralina, que morreu em 1985, aos 95 anos, é sua mais célebre representante. A memória dela está preservada na casa onde nasceu e morou. O imóvel está como Cora o deixou, com seus móveis, roupas e objetos pessoais. Na cozinha, ficaram os utensílios usados por ela para fazer doces cristalizados.

Cora também era doceira de mão cheia, e descreveu como ninguém a riqueza da culinária goiana em detalhes de dar água na boca. Generosa, passou adiante as receitas de seus doces cristalizados, que continuam a fazer o maior sucesso em prendadas mãos conterrâneas. Nas varandas de casas e em pequenas lojas de Goiás Velho, podem ser provados e adquiridos limõezinhos-galegos recheados com doce de leite, os doces de figo e de mamão maduro, passas de caju e compotas.

A primeira capital do estado em que está inserido o DF também preserva outras delícias da culinária goiana, muito parecida com a mineira. No café, por exemplo, não falta pão de queijo. São inúmeras as pamonharias e os diferentes sabores de pamonhas em Goiás Velho. A mais exótica é a à moda, com recheio de linguiça, queijo e pimenta. Também há típicos e simples restaurantes para saborear o arroz com pequi ou guariroba. .
 
 
O que visitar

Museus
» Casa de Cora Coralina
Casa onde nasceu e morreu a poetisa Cora Coralina. Guarda seus móveis, roupas e objetos pessoais.
» Museu das Bandeiras
Funciona na antiga Casa de Câmara e Cadeia. Tem acervo com peças e mobiliário do século 18.
» Palácio Conde dos Arcos
Tem acervo com obras do século 18, utensílios domésticos, pertences, artes decorativas e mobiliário dos antigos governantes goianos.
» Museu de Arte Sacra da Igreja da Boa Morte
Guarda o maior acervo do escultor barroco Veiga Vale, nascido em Pirenópolis, reunindo mais de 100 peças e coleções de prataria.

Igrejas
» Catedral de Sant’Ana
Localizada na Praça do Coreto, é um edifício feito de adobe e recém-restaurado.
» Igreja Nossa Senhora da Abadia
Capela do século 18, tem afrescos no teto.
» Igreja de Santa Bárbara
Apresenta retratos de compositores goianos do século 19 feitos pelo artista Amaury Meneses
» Convento dos Padres Dominicanos
Edifício do século 19 que guarda uma imagem de Nossa Senhora do Rosário, trazida por religiosos franceses.


Programação
» Dia 13
20h — Cantata natalina, abertura do projeto Goiás-Cidade Presépio. Local: Igreja do Rosário

» Dia 14
6h30 — Alvorada Festiva
8h — Café Cultural. Local: Praça do Coreto
10h — Abertura da exposição Olhar para Serra Dourada, do fotógrafo João Caetano. Local: Palácio Conde dos Arcos
16h — Tarde cultural, manifestação da cultura afro. Local: Praça do Coreto
19h30 — Apresentação da peça teatral Histórias e estórias de Vila Boa. Local: Centro Histórico
20h30 — Show Canto da Gente, com artistas locais. Local: Teatro São Joaquim
23h — Serenata pelas ruas da cidade. Local: Centro Histórico

» Dia 17
20h — Cantata natalina pelas ruas da cidade. Saída da Praça do Chafariz

» Dia 30
20h30 — Show da Integração Goiás, patrimônio do mundo e de todos nós. Local: Praça de Eventos

» Dia 31
20h30 — Show da Virada, Ano-novo da paz e do amor por Goiás. Local: Praça de Eventos
24h — Show pirotécnico

Memória
Em busca do ouro
Descobertas as Minas Gerais de um lado e as minas de Cuiabá de outro, no século 17, uma ideia renascentista (a de que os filões de metais preciosos se dispunham de forma paralela em relação à Linha do Equador) iria alimentar a hipótese de que, entre esses dois pontos, também haveria do mesmo ouro. Assim, foram intensificadas as investidas bandeirantes, principalmente paulistas, em território goiano, que culminariam tanto com a descoberta quanto com a apropriação das minas de ouro dos índios goiases, que seriam extintos dali mais rapidamente que o próprio metal.

Onde habitava a nação Goiá, Bartolomeu Bueno da Silva fundaria, em 1727, o Arraial de Sant'Anna. Em 1736, o local seria elevado à condição de vila administrativa, com o nome de Vila Boa de Goyaz (ortografia arcaica). Na época, ainda pertencia à Capitania de São Paulo. Em 1748, foi criada a Capitania de Goiás. Com o esgotamento do ouro, no fim do século 18, Vila Boa perdeu dinheiro, prestígio e teve sua população reduzida. Deixou de ser capital do estado em 1937, quando se deu a transferência para a recém-fundada Goiânia.
 
Cidade readaptada
Antes de receber o cobiçado título da Unesco, Goiás Velho tinha uma infraestrutura típica de cidade do interior. Era muito carente em todas as áreas. Para pleitear o prêmio de Patrimônio da Humanidade, o governo goiano pediu dinheiro emprestado ao Banco Mundial (Bird). Em obras, somente em 2001, gastaram-se R$ 40 milhões. Além de uma nova rede de esgoto, foram instaladas fiações elétricas subterrâneas.

Mas quase tudo se perdeu após a chuva que destruiu parte da cidade, na passagem de 2001 para 2002. Mais de 20% dos imóveis tombados foram atingidos pela enchente. Entre eles, a casa onde viveu a poetisa Cora Coralina, transformada em museu. Porém, em boa parte graças ao esforço dos moradores, hoje tudo está recuperado. Mais casarões foram restaurados do que havia em 2001. E mais pousadas abriram para receber os turistas.

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