sábado, 30 de março de 2013

A morte silenciosa do Centro de Goiânia

24/03/2013 - O Hoje

Falta de segurança e a não revitalização contribuem para o esvaziamento diário do Setor Central da capital e para a morte

MÁRIO BRAZ

O abandono em massa tem hora e dias marcados. O toque de recolher conserva-se sobre o nome de horário comercial. O Centro de Goiânia é usado de segunda-feira a sábado por aqueles que destinam à região apenas a expressão da prática profissional. Localização expoente da capital, habitada por famílias de alto poder aquisitivo, o Centro, hoje, é descrito sob a observação participante de Claudete Barroso Santana, moradora "há mais de 60 anos": "O que eu vejo é um bairro ocupado por idosos e casais de idosos resguardados nos apartamentos". Por isso, a mulher de 69 anos esclarece que não há investimentos no centro da cidade, uma vez que o público habitante ali não possui, em sua maioria, uma vida social agitada.

O desinteresse pelo centro também cabe em outros relatos, e o problema das drogas, e dos moradores de rua, é citação amiúde na fala daqueles que tem, na região, moradia. Claudete continua o exame e afirma que o fluxo constante de passantes no Centro favorece a mendicância e a prática de pequenos roubos, ações expostas como necessárias à obtenção de dinheiro para manter a dependência nos entorpecentes. A comunidade de moradores de rua, da região central, porém, dá outro motivo para a presença do grupo. O espaço é abrigado pelos olhos da sociedade, e a atuação policial, vigiada, fica inibida de excessos contra as pessoas em situação rua. Segundo eles, na periferia o tratamento policial é bem diferente.

A questão do uso de drogas é alinhavada por Isaura Bezerra Cavalcante, 61 anos, 19 deles vividos no centro. Costureira e modelista, Isaura completa a reclamação. No entanto, o ponto negativo é suprido por uma lista de elogios à região onde mora. Para ela, a localização é o principal fomentador de sua atividade profissional, observando a acessibilidade, a rede de linhas de transporte público e a habituação aos serviços que o Centro oferece. Antiga moradora do Setor Urias Magalhães, região do Vale do Meia Ponte, Isaura aponta dificuldades que teve em exercer a costura no bairro, situação alterada após se mudar para a atual localização. Nesses 19 anos ela já residiu nas Ruas 3 e 24, e há pouco se mudou para a Rua 60.

Mineira, Marlene Ferreira de Souza, a Dona Marlene, vive no setor Central há 11 anos e administra o bar Ponto 18, uma das opções para os que procuram lazer após o horário comercial. A revitalização do Colégio Estadual Lyceu de Goiânia, de acordo com ela, "melhorou muito o ambiente", no entanto, o abandono que a região vive pós-18 horas tem crescido. A falta de cuidado e manutenção com o bairro tem estimulado a migração para outros setores da cidade. O bar é, conforme a explicação de D. Marlene, frequentado por um público cativo, de moradores da região, conhecidos da proprietária do estabelecimento, ou que tem apego pelo local.

Arquiteto defende mudança de uso

A violência converge das cinco falas, e a insegurança é apontada como repulsão da vida social no centro. Quem comprova uma das causas da desocupação diária é o arquiteto e urbanista John Silveira, presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás.

A característica de cidade modernista, devido ao planejamento prévio à criação da capital, traz problemas posteriores, caso a formação urbanística da cidade não seja bem gerida. Segundo ele, a subutilização das áreas, e o zoneamento (que confia a cada região uma função) causam a repulsão, que pode ser revertida. Perguntado sobre o projeto de revitalização da Praça Cívica, John acredita que a mudança estrutural proposta para a praça não é suficiente para reverter o esvaziamento do Centro de Goiânia.

Para ele, "é necessário modificar o uso da região, criar novas formas que não são apenas ligadas ao desenho", assim, a proposta é promover um uso diferenciado por meio do destino do Centro a residências e a expressão cultural, que, no entanto, devem surgir depois de um empenho político em reverter a insegurança vivida nos horários não comerciais pelo Setor Central. John pondera que a presença policial excessiva também contribui para o sentimento de insegurança. "As pessoas se sentem protegidas quando há gente por perto."

A pavimentação também é outro ponto abordado pelo urbanista. Ele ressalta que é necessário promover acesso não só aos carros, mas aos pedestres e ciclistas – estes dois últimos grupos desfavorecidos pela dinâmica do trânsito, pelo risco e pela falta de estrutura.

O resgate da vida social é vivido por Claudete. "Aqui, as pessoas se conhecem, se cumprimentam, a relação com os outros é muito próxima, e eu não vejo isso nos outros setores". Ilhados no centro, os moradores vão se extinguindo e transformando o bairro em um depósito de mão de obra, com característica pendular, destinada apenas ao trabalho, vez que a área que tem potencial de ser aproveitada pelo convívio humano, independente do dia ou da hora.

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