sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Saem as praças. Ficam os carros

15/10/2015 - O Popular - GO

VANDRÉ ABREU

Até o fim deste ano, Goiânia não terá mais a Praça do Relógio, no Jardim Goiás, que está sendo recortada pela Prefeitura para a continuidade da Avenida Jamel Cecílio e da Rua 12, sob o argumento de aumentar a fluidez no trânsito em uma região crítica da cidade. As obras começaram na terça-feira. A solução para o problema dos carros suscitou discussões sobre a perda de referências e até da identidade da capital, já que a praça é considerada um equipamento característico da Região Sul. Nas redes sociais há até mesmo uma campanha: #SalvemaPraçadoRelógio.

O recorte, modificação ou eliminação de praças para dar mais espaço aos carros está longe de ser uma prática nova em avenidas da cidade e se repete em várias administrações do município. Desde 2006, já são pelo menos oito praças que sofreram adaptações ou desapareceram para dar espaço aos veículos. A Praça do Chafariz na T-63 com 85, por exemplo, deu lugar a um viaduto em 2008. O mesmo ocorreu na Praça do Ratinho um ano antes.

Em alguns casos, trata-se de uma solução rápida e pontual, em que se troca uma rotatória por um trecho semaforizado, como foi na Praça Walter Santos em 2006 e na Edilberto Veiga Jardim em 2011, cortadas ao meio para dar maior fluidez ao trânsito.

Em outros casos, a intervenção é mais grave. São os casos das praças A e da Bíblia, que há muito tempo são terminais de ônibus, e a Praça do Bandeirante, que ficou apenas com a estátua do Bandeirante, sem a praça.

BRT

Em 2016, a praça existente no cruzamento da Avenida 90 com a 136, no Setor Sul, vai dar espaço para o corredor da BRT (Bus Rapid Transit, da sigla em inglês). O mesmo vai acontecer no cruzamento da Perimetral Norte com a Goiás Norte.

O secretário municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMT), Andrey Azeredo, afirma que a Praça do Relógio, na prática, é uma rotatória, cuja função é conter o tráfego na Avenida Jamel Cecílio e que, atualmente, ela se tornou obsoleta. Andrey conta que o local foi denominado Praça Rotary Club Internacional em 10 de outubro de 1996 e nunca foi espaço de convívio para as pessoas. Abaixo da praça, há as casas de máquina feitas para que o relógio funcionasse e, por isso, o espaço permeável do local é menor do que em uma praça comum. "As referências da região são a Marginal Botafogo, a Avenida E, o viaduto da BR-153 e GO-020, o Centro Cultural Oscar Niemeyer e até o shopping, mas a rotatória não”, afirma o secretário, contestando os críticos que condenam a mudança.

Pesquisa na internet revela, no entanto, que lojas da Avenida Jamel Cecílio e empreendimentos residenciais da região consideram a Praça do Relógio como referência, assim como motoristas que trafegam pela via, até mesmo para a indicação de endereços. Além disso, o local guardava características paisagísticas diferentes, que criavam um clima de certa afetividade com a população.

Referências

A arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), afirma que não cabe ao Poder Público definir quais são as referências da cidade e, sim, o próprio cidadão. "A referência pode ser qualquer coisa, até uma árvore numa esquina ou em uma avenida, isso depende da relação que a pessoa tem com a cidade”, diz. Para ela, o secretário nega a importância histórica da Praça do Relógio, construída na década de 1990 para ser um marco na entrada sul de Goiânia, independente do tempo em que isso ocorreu.

Doutora em Transportes e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Erika Cristine Kneib afirma que os marcos urbanos são importantes para a legibilidade da cidade, que é necessária para a relação com o cidadão. Kneib explica que os marcos são usados na leitura da cidade, uma forma de reconhecer e se afeiçoar com o espaço urbano, além de servir também na construção da paisagem. "A Praça do Relógio já foi um ponto paisagístico importante e se o problema é ela não ser uma praça, que construam a praça para o relógio.”

Utilidade

Andrey Azeredo explica que o recorte na Praça do Relógio é uma decisão técnica que procura resolver o problema da Avenida Jamel Cecílio e, por isso, não ocorre sozinha. Além desta mudança, cuja decisão foi tomada em 2013, há um projeto de reconfiguração semafórica e proibição de estacionamento em parte da via. "Com as mudanças, seria ainda pior se mantivesse a rotatória. O semáforo organiza melhor o trânsito e melhora a fluidez. Hoje, a rotatória já não beneficia o trânsito local, é uma demanda de quem está na região.”

Maria Ester, em contrapartida, acredita que a rotatória no local, por ter mais de quatro saídas, funciona melhor que a semaforização na ordenação do trânsito. "Além disso, ela funciona como barreira da água em enxurrada, quebrando a velocidade e ajudando na drenagem da cidade.” Ela também afirma que a rotatória facilita a fluidez e a segurança, já que não há respeito pela semaforização. Andrey diz que, nesse caso, o argumento seria usar o problema da falta de respeito para impossibilitar mudanças na cidade.

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