segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Brasil vende casas e carros para a Alemanha

 27/12/2015 - O Estado de São Paulo, Cleide Silva

A valorização do dólar ainda não foi suficiente para reverter a queda das exportações brasileiras de manufaturados, mas tem permitido a empresas nacionais conquistar contratos externos por apresentarem preços competitivos internacionalmente.

No início de dezembro, a MVC Soluções em Plásticos, de São José dos Pinhais (PR), iniciou o envio, para a Alemanha, de casas pré-fabricadas para abrigar refugiados sírios. Em São Paulo, a loja de carros de luxo Stern, na avenida Europa, está exportando modelos Mercedes-Benz usados também para a Alemanha, de onde foram importados quando novos.

"Com a situação do câmbio, está mais em conta comprar aqui do que na própria Europa", diz Walter Raucci, proprietário da Stern. Há três semanas ele enviou, por navio, quatro unidades da série especial SLS para um revendedor de Hamburgo.

Gilmar Lima, diretor-geral da MVC, diz que o primeiro contrato das casas pré-fabricadas prevê o envio mensal de 100 kits, compostos por paredes interna e externa, forro, estrutura do telhado e sistema elétrico e hidráulico. A montagem será feita por profissionais alemães, com assessoria de pessoal da empresa brasileira.

A previsão é entregar 1,2 mil kits no próximo ano, contrato avaliado em R$ 65 milhões - o dobro da receita prevista pela empresa neste ano, de R$ 120 milhões. "Temos outros países interessados, como França, Áustria, Hungria e Turquia, mas ficará para uma segunda fase."

As casas foram adquiridas por um grupo de investidores europeus. Elas serão revendidas ao governo alemão que, por sua vez, as construirá em áreas específicas para abrigar refugiados, especialmente sírios. A Alemanha é o principal destino europeu de imigrantes e refugiados da Ásia e da África. Neste ano, já recebeu 965 mil pedidos de asilo, ante 173 mil em 2014.

A primeira casa da MVC está sendo montada em Bremen, num galpão, para passar por processo de homologação. Outras 40 unidades seguirão em janeiro. O volume será ampliado gradualmente até chegar a 100 kits mensais. As casas precisaram ser adaptadas para enfrentar o rigoroso inverno local.

"Estamos nos preparando para, a partir de abril, ampliar nossa capacidade produtiva para 400 casas por mês", diz Lima. A empresa já exportou o produto para outras regiões, como América Latina e África. A MVC pertence aos grupos Artecola e Marcopolo e fornece imóveis pré-fabricadas para o governo, pelo programa Minha Casa Minha Vida. A empresa também desenvolve parceria com um grupo argentino para montar uma fábrica naquele país em 2016.

Caminho de volta. Entre 2010 e 2012, cerca de 60 a 80 unidades do esportivo de luxo SLS AMG, da Mercedes-Benz, foram importadas da Alemanha e vendidas no País a partir de US$ 360 mil, o equivalente, na época, a cerca de R$ 650 mil. Por ter produção limitada, o modelo, famoso pelas portas tipo asa de águia, hoje tem grande procura no mercado de usados e o Brasil entrou na mira de interessados.

"Com a alta repentina do dólar no Brasil, é mais vantajoso comprar aqui", afirma Raucci. Segundo ele, o SLS ano 2011 custa US$ 110 mil no mercado local (cerca de R$ 440 mil), enquanto na Europa é vendido por US$ 150 mil a US$ 180 mil (R$ 600 mil a R$ 720 mil), dependendo da quilometragem e das condições do carro. "Mesmo tendo de pagar em média US$ 8 mil (R$ 24 mil) para o transporte, ainda compensa", diz.

Raucci vendeu quatro esportivos SLS para alemães (um deles conversível) e tem pelo menos mais 20 encomendas. "É um fato inédito exportar modelos Mercedes-Benz que foram produzidos lá", afirma. Outra vantagem, diz ele, é que automóveis dessa categoria rodaram pouco no País. "Temos versões que rodaram apenas 5 mil quilômetros."

Prédios mais altos do país cobrem o sol em Balneário Camboriú

 27/12/2015 - Folha de São Paulo, Felipe Bächtold

Em uma faixa litorânea de cinco quilômetros entre uma movimentada rodovia e áreas de preservação, construtoras erguem uma fileira de arranha-céus. No térreo, a disputa é por um lugar ao sol: os edifícios criaram zonas de sombra na areia da praia.

Imune à crise, Balneário Camboriú, praia no litoral norte de Santa Catarina, deve dominar em breve a lista de detentores dos maiores prédios da América do Sul.

Diferentemente de outras partes do mundo, os edifícios mais altos do país não serão comerciais, pois servirão de residência para veranistas.

Três empreiteiras locais disputam o título de responsável pelo maior arranha-céu. Hoje, a marca está com o Millenium Palace, de 45 andares. Com a ajuda de uma antena, ele chega aos 177 m e ultrapassa o edifício paulistano Mirante do Vale (170 m).

Dois empreendimentos em construção vão passar dos 240 m: o Yachthouse (74 andares) e o Infinity Coast (66).

As construtoras analisam a viabilidade de projetos com mais de 80 andares e alegam que as megaconstruções são feitas por necessidade de mercado. A regra é evitar apartamentos sem vista para o mar. Com a escassez de terrenos, a saída seria construir, no máximo, duas unidades por pavimento. 

CELEBRIDADES 

"Para viabilizar a obra, [os prédios] precisam de estrutura compatível com os preços dos terrenos, que são caros. É uma das áreas mais valorizadas do país", diz Altevir Baron, diretor da construtora FG Empreendimentos, que tem a atriz americana Sharon Stone como garota-propaganda.

Com 128 mil habitantes, Balneário Camboriú atrai aposentados e endinheirados. Segundo as construtoras, um dos públicos-alvo são milionários do agronegócio do Centro-Oeste e do Sul.

A região também chama a atenção de celebridades, como o cantor Luan Santana e o jogador Neymar, que compraram imóveis por lá. Os empreendimentos seguem a linha "condomínio-clube" e têm unidades que custam por volta de R$ 3 milhões. 

ZONA DE SOMBRA 

Os empresários dizem buscar tecnologia fora do país, já que o Brasil não tem expertise em edificações desse porte. São feitos testes em túneis de vento na Inglaterra, e os elevadores importados podem funcionar em alturas superiores a 150m.

O estilo das construções, que varia de colunas gregas a dezenas de andares envidraçados, gera comparações com Dubai, nos Emirados Árabes, que hoje tem o maior edifício do mundo,com 828m.

Mas também desperta críticas. A mais visível delas é a zona de sombra que as construções projetam na praia a partir do meio da tarde. Há também os paredões dos prédios, que transformam ruas em corredores de ventania. "Ninguém gosta de ficar em uma rua sem luz do dia. Querem fazer [de Camboriú] a Mônaco brasileira, mas veja bem: isso não é um elogio", diz o professor de arquitetura Carlos Barbosa, da Universidade do Vale do Itajaí.

Barbosa diz que as torres não se destacam na paisagem, já que são construídas umas próximas às outras e em ruas estreitas.

Procurada, a prefeitura não confirma as alturas projetadas dos arranha-céus em construção e ressalta que vários ainda estão sob análise. Afirma, porém, que vem tomando medidas para evitar o adensamento urbano, outro questionamento frequente à ambição das construtoras.

O município tem cobrado das incorporadoras a criação de garagens públicas nos prédios. A construção de edifícios mais altos também exige taxas que podem passar de R$ 50 mil por apartamento.

"É preciso equilibrar estrutura urbana, qualidade de vida e atratividade para quem vier investir", diz Alcino Pasqualotto, diretor-geral da construtora Pasqualotto.