sábado, 1 de dezembro de 2012

Alta frequência

30/11/2012 - Valor Econômico, Jane Soares

Tudo parece conspirar a favor da indústria de shopping centers, que atravessa um dos melhores momentos de sua história no país. Rendimento da população em alta, melhor distribuição de renda, baixo índice de desemprego, juros em queda, maior oferta de crédito, prazos mais longos e confiança no futuro estimulam os consumidores a colocar a mão no bolso e gastar.
Os empresários perceberam a oportunidade de embarcar em uma onda de crescimento sem precedentes e também colocaram a mão no bolso para investir. Resultado: 28 novos empreendimentos em 2012, um recorde. Que não deve durar muito tempo. Afinal, 48 centros de compra já foram anunciados para 2013. "O setor cresce em todas as regiões", comemora Adriana Colloca, superintendente da Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce).
Os números da indústria são grandiosos. No fim deste ano, o Brasil terá 458 malls em funcionamento, instalados em 24,8 milhões de m² de área construída e com 11 milhões de m² área bruta locável (ABL). São 80 mil lojas, 735,7 mil vagas nos estacionamentos e 2.745 salas de cinema. O setor gera 775,4 mil postos de trabalho. Depois de um primeiro semestre em marcha lenta, os negócios engrenaram e a estimativa de uma nova expansão de 12% tem grandes chances de se concretizar. Se isso acontecer, o faturamento, que cresce sem parar desde 2005, chegará a R$ 121 bilhões. Outra novidade: pela primeira vez, o número de shoppings no interior, 226, superou o das capitais, consolidando a tendência de interiorização do segmento.
O melhor: a fase de expansão parece estar longe de se esgotar. A situação pode até melhorar. Carlos Medeiros, presidente da BR Malls, a maior empresa de shoppings do país, lembra que os juros praticados pelos bancos devem cair, incentivando ainda mais o consumo. Além disso, 250 dos 451 centros de compras em atividade estão no Sudeste e 225 nas capitais. Ou seja, ainda há muito espaço para crescer Brasil afora e até mesmo nas capitais.
A receita da expansão dos shoppings tem um ingrediente adicional: o bônus demográfico. "É um período único na história de uma nação em que o número de pessoas em idade de trabalhar, e, portanto, de consumir, é maior do que o de dependentes", explica Cláudio Sallum, sócio-diretor da Lumine, empresa especializada em soluções para shopping centers. Segundo estudo do Banco Mundial, o momento da "virada" demográfica começará em 2020, quando o envelhecimento da população começará a mostrar sua cara de forma mais acentuada.
Além da conjuntura favorável, parte do consistente crescimento da indústria pode ser explicado pela profissionalização do setor e por sua capacidade de se adaptar às novas tendências e exigências do mercado consumidor. Essa flexibilidade determinou a "democratização" dos malls, que se estruturaram para receber e atender a um novo público, formado por aproximadamente 3 milhões de brasileiros das classes D e E que galgaram os degraus para faixas de renda superiores. Pesquisa encomendada pela Abrasce para a GKF mostra que a classe B ganha importância como frequentadora dos shoppings, passando de 44%, em 2009, para 54%, em 2012. Quando somada ao público da classe C, representam 77% do total.
Esse público, porém, também traz um novo conjunto de demandas para o setor. Um estudo da GS&MD - Gouvêa de Souza detectou que os shoppings ainda são o local preferido de compras de apenas um quarto do contingente de pessoas que conquistaram recentemente níveis mais elevados de consumo. Luiz Alberto Marinho, sócio diretor da GS&BW, unidade especializada em shoppings da consultoria, avalia que existe uma clara necessidade de conquistar esse público que migrou das classes D/C2 para as B2/C nos últimos cinco anos. "É um grande desafio estruturar um shopping para essa nova classe média. Ainda não sabemos o modelo ideal", diz.
O empresário mineiro Elias Tergilene resolveu encarar esse desafio e acredita ter descoberto o segredo. Estruturou a Rede Uai de Shopping, o primeiro grupo popular reconhecido pela Abrasce. O empreendimento foi implantado em um imóvel em frente à rodoviária de Belo Horizonte, na região central da capital mineira, há quatro anos. Hoje são cinco unidades em funcionamento, duas em Manaus e três em Minas Gerais, todas em locais de grande circulação ou muito populosos. O investimento nos malls instalados em Minas foi de R$ 73 milhões. As âncoras são marcas como Lojas Americanas, Bob's e Marisa. Ao lado delas, atuam pequenos empresários. Segundo a empresa, os centros de compras registram um crescimento anual de 20%, com previsão de faturamento de R$ 24 milhões em 2012.
O grupo pretende investir R$ 1 bilhão nos próximos cinco anos em 12 operações na Bahia, Pará, Piauí e interior de São Paulo. Quatro delas estão sendo instaladas em Manaus e Minas. "Nossos shoppings são dirigidos à classe G, de gente", afirma Tergilene. O diretor de operações da Rede Uai Shopping critica a resistência das grifes em aderir aos empreendimentos, alegando que um motoboy compra uma moto por R$ 2,5 mil e certamente pode pagar R$ 600 por um tênis de marca.
Florescem também os negócios nos segmentos já consolidados. A BR Malls, que foca as classes A e B e tem 50 empreendimentos em seu portfólio, investiu R$ 450 milhões em desenvolvimento e R$ 600 milhões em aquisições neste ano - uma delas foi a compra de 100% de participação no Shopping Capim Dourado, de Palmas (TO). A companhia inaugurou o Londrina Norte (PR), o Estação BH (MG) e o São Bernardo Plaza Shopping (SP). Em 2013, pretende investir R$ 500 milhões. Outros quatro projetos estão em andamento em São Paulo, Minas Gerais, Espírito Santo e Paraná.
A maioria dos novos empreendimentos, populares ou sofisticados, obedece uma nova tendência: os shoppings deixam de ser meros centros de compras para se transformar em locais de socialização e lazer. "As cidades perderam os espaços de encontro em função do caos urbano e os malls podem ser esse lugar de convivência, a extensão da rua, onde as compras também acontecem", diz Marinho. "Uma das grandes mudanças do setor é transformar os malls em grandes áreas de encontro e entretenimento familiar", reforça Sallum.
Com isso, a arquitetura muda conceitualmente. Corredores estreitos, feericamente iluminados para o cliente sequer desconfiar do que acontece do lado de fora e não ver o tempo passar, cedem lugar a ruas largas, praças e terraços banhados por luz natural.



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